O elenco de Virtuosas conta que o longa, ambientado em um retiro ultraconservador, mistura terror, opressão e humor ácido. O filme chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 24 de setembro, com Bruna Linzmeyer no papel de Virgínia Heinzel, uma coach que apresenta às participantes um modelo rígido de comportamento feminino.
A promessa de transformação feita pela líder envolve família, fé e a busca pela “melhor versão de si mesma”. Conforme o retiro avança, porém, esse discurso assume contornos inquietantes. As atrizes Maria Galant, Juliana Lourenção, Sarah Motta e Brisa Marques falaram sobre os desejos, conflitos e contradições das mulheres que frequentam o encontro.
Um retrato do presente
Para a diretora Cíntia Domit Bittar, a identidade visual do filme precisava revelar as regras daquele ambiente antes mesmo dos diálogos. Roupas, objetos e cores foram definidos a partir de uma pesquisa sobre a forma como determinados grupos apresentam ideias de feminilidade.
O longa também incorpora a linguagem dos coaches e do empreendedorismo. A estética foi pensada como um registro do momento atual, em uma combinação de discursos e referências que já são reconhecidos pelo público. Cíntia afirmou que a reação ao trailer mostrou que essa comunicação funcionou: “As pessoas batem o olho e sabem exatamente do que a gente está falando”.
A caracterização de Virgínia ainda gerou confusão entre parte do público. Bruna Linzmeyer contou ter visto comentários de pessoas que imaginaram que ela havia mudado suas próprias convicções por causa da personagem. A atriz já conhecia o trabalho de Cíntia e aceitou o convite depois de ler o roteiro. Natural do interior de Santa Catarina, ela também celebrou a oportunidade de voltar ao estado para filmar.
Desejo de pertencimento
Maria Galant interpreta Germina, uma mulher que começa a torcer para que tudo dê certo, mas passa a se desesperar com os rumos do retiro. A atriz quis construir uma personagem capaz de despertar afeto e provocar risadas, embora a desconfiança de Germina não signifique que ela compreenda as demais participantes.
Para Maria, Germina também erra ao considerar superficiais as pessoas que não conhece. Um olhar mais cuidadoso, segundo a atriz, poderia ter mudado o caminho dos acontecimentos.
Sarah Motta encontrou no racismo uma chave para interpretar Bárbara. A personagem tenta se aproximar do padrão de mulher celebrado no retiro e valoriza a própria descendência italiana como uma forma de destacar seu lado branco. A atriz entende esse comportamento como uma tentativa de escapar do racismo e da própria negritude para se encaixar na imagem da mulher virtuosa e branca de classe média.
Já Lorena, vivida por Juliana Lourenção, está ligada às discussões sobre a propagação de valores ultraconservadores e discursos negacionistas nas redes sociais. A atriz descreveu mulheres oprimidas e sem consciência de si como alvos fáceis de figuras de poder. O desafio foi evitar uma representação caricata: “uma mulher que performa, mas que é monstruosamente humana”.
O horror diante do público
As intérpretes afirmam que levaram a sério as crenças de suas personagens durante as gravações. Por isso, a reação das plateias, que riram em vários momentos, surpreendeu parte do elenco. Sarah disse que não buscou um tom cômico para Bárbara e ressaltou: “Essas mulheres existem na vida real”.
Brisa Marques, que interpreta Gorete, teve uma impressão semelhante ao assistir ao filme com o público no Festival do Rio. A atriz relacionou a construção da personagem à experiência com a palhaçaria: mesmo em situações absurdas, o palhaço sofre, ri e sente vergonha de verdade. Gorete segue essa lógica, já que suas ideias e atitudes fazem sentido para ela.
Juliana também contou que precisou conter o riso entre algumas tomadas, apesar de as cenas abordarem situações pesadas. Para ela, a convivência entre as atrizes ajudou a criar um ambiente mais leve nos bastidores, enquanto o humor ácido acabou chegando à tela.
Cíntia acompanha os comentários sobre o trailer e as sessões, mas prefere não interferir nas interpretações do público. Para a diretora, depois que o filme é exibido, ele passa a pertencer também às pessoas que o assistiram.







