NASHVILLE — Stella Lefty alcançou o topo das paradas country, mas passou a enfrentar uma onda de acusações de plágio na internet. A cantora de “Boston” teve semelhanças apontadas com músicas de Noah Kahan, The Chicks, Blake Shelton, Wheatus e outros artistas. Profissionais da indústria, porém, consideram que a reação contra ela pode estar sendo desproporcional.
“Boston” estreou na Billboard Country Airplay em maio de 2026 e subiu rapidamente. A faixa ocupa o terceiro lugar na Country Airplay e o segundo na Hot 100. A música apresenta semelhanças melódicas com “Stick Season”, de Kahan, que foi incluído nos créditos de composição antes do lançamento oficial, após contato entre as equipes.
A ascensão de Lefty também foi impulsionada por apresentações no CMA Fest, em junho. Os shows começaram a esgotar, enquanto jovens fãs cantavam as músicas e pediam autógrafos. Ao mesmo tempo, críticas nas redes sociais associavam a artista ao fato de ela ser filha de Eric Lefkofsky, fundador do Groupon e bilionário.
Outras comparações
As acusações aumentaram depois que ouvintes relacionaram “Summer You Were Mine”, do álbum Long Way Home, ao sucesso de 1998 “There’s Your Trouble”, das The Chicks. Um representante da Atlantic Records afirmou que uma plataforma de streaming omitiu por engano Tia Sillers e Mark Selby dos créditos. Os dois aparecem como compositores da faixa de Lefty.
Também foram apontadas semelhanças entre “Why Wouldn’t We” e “I’ll Name the Dogs”, de Blake Shelton; “Seven Eleven” e “Teenage Dirtbag”, do Wheatus; e “Misery”, do EP Tragic, Really, e “A Million Dreams”, de O Rei do Show. Outra comparação envolveu a música-tema de Três é Demais.
As críticas deram origem ao apelido “Stella Thefty” e chegaram a acusações de que a cantora faria parte de um experimento de inteligência artificial criado por seu pai. Também houve comentários antissemitas, já que Lefty é judia. Nenhuma dessas alegações foi confirmada no material apresentado.
Um padrão conhecido em Nashville
RJ Curtis, diretor executivo da Country Radio Broadcasters, Inc., afirma que a música country costuma reutilizar referências do próprio gênero. “Sempre pegou inspiração emprestada de si mesma”, disse.
Especialistas lembram que o bro-country, tendência predominante na década de 2010, era marcado por canções com temas e estruturas recorrentes. Em 2023, músicas que reescreviam sucessos antigos também ganharam espaço, como “She Had Me at Heads Carolina”, de Cole Swindell, baseada em “Heads Carolina, Tails California”, de Jo Dee Messina. Jake Owen lançou “On the Boat Again”, inspirada em “On the Road Again”, de Willie Nelson. Dustin Lynch e Jelly Roll fizeram movimento semelhante em “Chevrolet”, relacionada a “Drift Away”, de Dobie Gray.
Nesses casos, os compositores originais receberam crédito. Para Curtis, a diferença entre influência e plágio continua difícil de estabelecer, principalmente em um cenário no qual artistas e ouvintes têm acesso a um volume imenso de músicas. Ele também afirma que a popularização de vídeos curtos e covers no TikTok ampliou a quantidade de melodias que chegam aos compositores.
Ed Sheeran apresentou argumento parecido em 2024, ao se defender no tribunal de uma acusação envolvendo “Thinking Out Loud” e “Let’s Get It On”, de Marvin Gaye. O cantor venceu o processo.
Debate sobre gênero e acesso
Kelsea Ballerini e Chris Kappy, empresário de Luke Combs, apoiaram Lefty. A cantora também foi anunciada como uma das atrações do Stagecoach 2027 e continua acumulando dezenas de milhões de reproduções semanais.
Leslie Fram, executiva da indústria country, afirma que progressões parecidas e refrões familiares fazem parte da história do country e do pop country. Para ela, quando existe uma semelhança clara, o caminho profissional é esclarecer a interpolação e creditar os autores — procedimento adotado nas referências a Kahan e às The Chicks.
A musicóloga Dra. Jada Watson reconhece semelhanças em algumas das músicas questionadas, mas alerta que a misoginia pode influenciar a intensidade das investigações contra jovens artistas mulheres. Ela também defende uma discussão sobre quem tem acesso às tradições do country e aos recursos necessários para construir uma carreira.
Lefty corrigiu rapidamente os créditos editoriais de “Boston” e “Summer You Were Mine”. Para Tracy Gershon, empresária e editora musical da cantora, “Bom é bom”. Kappy também afirmou que dinheiro não compra sucesso e que o público vai aos shows pela música.
Curtis lamenta que a controvérsia esteja desviando a atenção de um ano que considera marcante para as mulheres na música country. Para ele, esse é o ponto central do debate sobre a repercussão envolvendo Stella Lefty.







