Sudan Archives transforma o palco em um laboratório de música, tecnologia e movimento. Na turnê de The BPM, a artista norte-americana combina violino, eletrônica, loops, instrumentos amplificados e dança para criar uma apresentação em que os equipamentos parecem extensões do próprio corpo.
A performance foi construída para ser realizada por ela sozinha. Sudan Archives toca, canta, programa, dispara sons, manipula máquinas e conduz a narrativa de Gadget Girl, persona criada para o novo disco. A personagem nasceu da relação da artista com a tecnologia e de experiências de solidão e deslocamento vividas desde a infância.
Nascida em Cincinnati, Brittney Parks começou a desenvolver sua linguagem musical de forma autodidata. Em vez de manter o violino restrito ao campo erudito, passou a misturá-lo com R&B, hip-hop, música eletrônica, música experimental e tradições de instrumentos de cordas. A trajetória inclui os álbuns Athena, de 2019, Natural Brown Prom Queen, de 2022, e The BPM.
Uma banda de uma mulher só
A artista conta que nunca se sentiu conectada o suficiente às pessoas para formar uma banda. A tecnologia acabou ocupando esse espaço de companhia. O pai, interessado em aparelhos eletrônicos, deu a ela o primeiro equipamento usado para criar música: um iPad. A partir daí, ela começou a combinar o violino com sons eletrônicos e passou a observar músicos que tocavam acompanhados por baterias eletrônicas e faixas pré-gravadas.
Gadget Girl reúne essas referências. Sudan Archives compara a personagem a Kim Possible, alguém sem poderes mágicos, mas capaz de fazer coisas que parecem extraordinárias por dominar seus gadgets. A persona também sustenta a decisão de manter o palco vazio de outros músicos: dentro da narrativa do álbum, ela é uma mulher determinada a resolver tudo sozinha, mesmo quando a situação se torna difícil.
A artista afirma que procura não tratar a técnica do violino como algo intocável ou excessivamente sério. O show, segundo ela, precisa preservar o caráter divertido da experiência. Em uma fase intermediária da carreira, Sudan Archives também considera a possibilidade de voltar a dividir o palco, especialmente com alguém na bateria, mas entende que essa formação não combinaria com a história de Gadget Girl.
Menos equipamentos, mais controle
Para os shows no Brasil e na Ásia, a estrutura foi reduzida. A artista não levará piano, baterias e dois violinos. O equipamento será composto por uma bateria eletrônica, um violino, um headset sem fio e outros dispositivos sem fio. Com a mudança, a quantidade de cases pelican cai de dez para cinco.
A redução também alterou o sistema usado para reproduzir as faixas. Sudan Archives montou uma estrutura analógica, sem computador. A escolha é curiosa para uma personagem tão ligada à tecnologia, mas reflete o incômodo da artista com computadores durante as apresentações. “Eu realmente odeio performar com computadores”, afirmou.
O uso de aparelhos sem fio, por outro lado, é associado à sensação de autonomia. Para Sudan Archives, os gadgets podem se tornar extensões de seu corpo e deixar a performance mais fluida. Ao mesmo tempo, a narrativa de Gadget Girl prevê o momento em que o excesso de tecnologia sai do controle e a personagem já não consegue administrar tudo.
Dança, acesso e cultura clubber
The BPM também se aproxima da dance music, da house e de vertentes da música eletrônica. Ao falar sobre a cultura clubber, Sudan Archives critica o encarecimento de festas, festivais e eventos que antes funcionavam como espaços de encontro e experimentação comunitária.
Ela lembra que, no começo da carreira, participou de shows experimentais organizados com poucos recursos, nos quais artistas e público construíam juntos as condições para a apresentação. Com o crescimento da carreira, a música pode se tornar menos acessível, especialmente quando chega a festivais e eventos com ingressos mais caros.
Como alternativa, a artista cita a Hood Rave, festa realizada em Los Angeles por dois DJs. O evento trabalha com preços flexíveis e busca receber pessoas de diferentes perfis. Para Sudan Archives, artistas deveriam continuar apoiando espaços desse tipo, mesmo quando alcançam maior visibilidade.
No Brasil, ela quer reforçar a presença da batida e dos graves eletrônicos. Também pretende subir ao palco descalça, uma escolha que relaciona o corpo ao chão e ao movimento da música. A apresentação de Sudan Archives está marcada para 28 de Setembro de 2026, no Cine Joia, em São Paulo, como parte do Balaclava Fest. As portas abrem às 20h, e o show começa às 21h30. A classificação é 16+; menores de 16 anos precisam estar acompanhados dos pais ou de responsável legal.
Ao falar sobre sua personalidade, a artista diz ser muito analítica consigo mesma e afirma que a dificuldade de se expressar está entre as razões pelas quais faz música. Suas personas, explica, aparecem enquanto grava letras e melodias ainda inacabadas e depois observa, de fora, o que aquelas canções estão tentando dizer.







