A adaptação de Verity, romance de Colleen Hoover, tinha uma combinação promissora para um thriller psicológico: uma escritora em crise, uma autora famosa impedida de trabalhar e manuscritos capazes de mudar a percepção sobre uma família. O filme, porém, entrega pistas evidentes, reviravoltas pouco convincentes e piadas que quebram a tensão construída pela história.
Lowen Ashleigh, vivida por Dakota Johnson, enfrenta dificuldades financeiras quando recebe uma proposta de Jeremy Crawford, personagem de Josh Hartnett. O marido de Verity Crawford, interpretada por Anne Hathaway, oferece um contrato de meio milhão de dólares para que Lowen assuma como ghostwriter os livros de uma série literária bem-sucedida. Verity não pode continuar escrevendo depois de sofrer um acidente.
Ao entrar na casa dos Crawford e examinar o material deixado pela autora, Lowen encontra uma imagem perturbadora de Verity. Os manuscritos apresentam uma mulher consumida pela relação com os próprios filhos e pela necessidade de aprovação do marido. A promessa de uma narrativa ambígua está ali, mas o longa não se dedica o bastante às contradições dessa personagem.
Mistérios sem ambiguidade
Anne Hathaway aproveita os momentos em que Verity consegue se expressar e cria uma presença inquietante. O problema não está principalmente na atuação, mas na forma superficial como as motivações da personagem são apresentadas. A produção sugere uma família profundamente perturbada, sem explorar o suficiente as consequências e os conflitos dessa dinâmica.
A trajetória de Lowen também perde força. Ela começa insegura, acostumada a não ser reconhecida e determinada a provar seu valor. Conforme se aproxima de Jeremy e da família, passa rapidamente a acreditar que merece ocupar o lugar de Verity. Como essa mudança não é desenvolvida, sua transformação parece uma exigência conveniente do roteiro, e não uma evolução psicológica.
O suspense ainda sofre com a falta de dúvida. O filme apresenta pistas tão diretas que o público pode identificar a verdade muito antes da revelação. Em vez de sustentar a tensão sobre qual versão dos acontecimentos é verdadeira, a narrativa apenas prolonga a confirmação de algo já percebido.
Jumpscares de pouco impacto, sexualização excessiva e frases cafonas completam o conjunto. Dakota Johnson tem atuação limitada, enquanto Josh Hartnett e Anne Hathaway conseguem se destacar dentro das possibilidades oferecidas pelo roteiro. A história de Colleen Hoover continua instigante, mas a adaptação parece mais interessada em chegar à próxima virada do que em construir uma ambiguidade realmente perturbadora.
Lançado nos cinemas nesta quarta-feira, dia 30 de setembro, Verity deixa a impressão de que o livro funciona melhor do que o filme. Para quem busca uma abordagem mais consistente de conflitos familiares ambíguos, A Filha Perdida (2021), disponível na Netflix, é uma referência mais eficaz dentro dessa proposta.







