FORTALEZA — Um áudio de 16 minutos enviado por Isabelle Caracristi ao primo duas horas antes de sua morte descreveu uma discussão com o namorado, João Munhoz Neto. Segundo o depoimento do familiar, a estudante disse que se sentia ameaçada e afirmou que, caso algo acontecesse, João seria o responsável.
Isabelle, de 22 anos, morreu após cair do 23º andar do edifício onde morava com João, no bairro da Aldeota, na noite de 13 de setembro. A Polícia Civil investiga o namorado por induzimento, instigação ou auxílio a suicídio e violência psicológica. Ele foi preso na terça-feira (22).
Relato ao primo
Uma semana antes da morte, Isabelle havia contado ao primo que não suportava mais o comportamento de João. Ela mencionou ciúme excessivo e a proibição de manter contato com familiares e colegas de trabalho. Durante a ligação, o parente disse ter ouvido João ao fundo mandando que ela desligasse o telefone.
Ainda nessa conversa, a estudante afirmou que pretendia denunciar o namorado na Justiça do Trabalho e pediu que qualquer ocorrência envolvendo ela fosse investigada. Ao reforçar a preocupação com João, disse: “João é doente, não acredite nele”.
Na noite de 13 de setembro, a mãe de Isabelle, Isorlanda Caracristi, relatou que recebeu uma última mensagem da filha dizendo que a amava, instantes antes da queda.
Mensagens recuperadas
A análise preliminar do celular apontou relatos de vigilância e controle atribuídos a João. A estudante descreveu sentir-se ameaçada, manipulada, pressionada, sobrecarregada e presa. Também afirmou que as atitudes do namorado lhe faziam mal e a adoeciam.
O impacto da queda danificou o aparelho. Com um backup em nuvem, as equipes técnicas conseguiram recuperar mensagens enviadas e recebidas até 2h daquele dia. O período entre 2h e 20h40, horário estimado da morte, não pôde ser restaurado.
No pedido de prisão preventiva, os delegados afirmaram que João exigia acesso permanente à localização de Isabelle e interferia em aspectos familiares, financeiros, sexuais e profissionais da vida dela. O documento também descreveu a relação como marcada por múltiplas assimetrias, incluindo a posição de ascendência profissional de João sobre a estudante, que atuava como estagiária em um escritório de advocacia.
A Polícia Civil informou ainda que havia uma câmera particular na soleira da porta do apartamento. O equipamento foi retirado, sem que fosse possível precisar quando, o que levantou a possibilidade de remoção depois dos fatos.
Ao decretar a prisão preventiva, a juíza Fabrícia Ferreira de Freitas registrou que Isabelle estava sob intensa pressão psicológica e em evidente esgotamento diante das investidas controladoras do namorado. A magistrada também citou vigilância, manipulação, constrangimento, pressão emocional, insistência sexual e controle da localização e da vida financeira.
A advogada Lígia Peixe afirmou que João não estava no edifício no momento da queda e atribuiu o desaparecimento dele após a morte ao abalo provocado pelo ocorrido. A defesa confirmou ainda que ele é casado com outra mulher e está em processo de divórcio.







