BRASÍLIA — Famílias que receberam cartas psicografadas de Máira Rocha passaram a questionar a origem das mensagens após identificar erros e trechos semelhantes a informações disponíveis na internet. A advogada, que também trabalha no Ministério da Saúde, é acusada de falsificar os textos destinados a pessoas em luto.
Os relatos foram exibidos neste domingo (6). Máira também possui registros policiais em pelo menos cinco estados por acusações de estelionato, calúnia, difamação e ameaça.
Informações antes da psicografia
Marina Escames procurou a médium depois da morte do marido, na expectativa de receber uma mensagem que ajudasse o filho. Para participar da sessão, ela informou ao centro espírita dados pessoais dela e do acompanhante, além de entregar uma foto do marido.
Segundo Marina, o cadastro era feito com 60 dias de antecedência e incluía nome completo e CPF. Ela também contou que respondeu a perguntas sobre a morte do marido e forneceu outras informações durante o atendimento.
A mensagem inicialmente convenceu Marina, que reconheceu detalhes da convivência familiar. A desconfiança veio quando o filho mais velho consultou as antigas redes sociais do pai e encontrou semelhanças entre os dados publicados e o conteúdo da carta. “Mãe, olha, tá tudo aqui!”, relatou o jovem ao descrever o momento em que mostrou a descoberta.
Marcela Magalhães passou por situação semelhante ao receber uma mensagem atribuída ao filho Henrique, que morreu aos 18 anos em um acidente de carro. Em uma live, Máira afirmou que ele era um jogador de futebol que havia desencarnado cedo. Marcela, porém, disse que o filho nunca tinha sido jogador profissional. Depois, encontrou uma reportagem sobre a morte dele com a mesma informação incorreta apresentada na mensagem.
Centro espírita e acusações
Máira dirige a Casa da Caridade Inácio Daniel, centro espírita construído no início deste ano. O local recebe cerca de cinco mil pessoas por mês e oferece distribuição de alimentos, roupas e agasalhos, além de atendimentos espirituais e cartas consoladoras coordenados pela médium.
As atividades são mantidas por doações de familiares que procuram o espaço. O centro também promoveu leilões de roupas e objetos usados por Máira durante as sessões. A prática foi questionada por Jorge Godinho, presidente da Federação Espírita Brasileira: “A doutrina não nos autoriza, não nos ensina a realizar leilões, esse tipo de prática.”
O escritor e pesquisador espírita Pedro Camilo afirmou que os dados entregues previamente podem ser usados para pesquisar informações sobre as pessoas e seus parentes na internet. Godinho comparou o procedimento ao trabalho de Chico Xavier, que, segundo ele, não tinha acesso antecipado a CPF ou endereço dos participantes.
Sete lideranças espíritas assinaram um manifesto e apresentaram notícia-crime por estelionato, charlatanismo e possível violação do artigo 232 do Estatuto da Criança e do Adolescente. O Ministério Público analisa ainda suspeitas de apropriação indébita, desvio de recursos e rede de influência com servidores públicos.
O advogado criminalista Luiz Henrique Machado explicou que o estelionato, nesse caso, seria a utilização da fé para apresentar como extraordinárias informações obtidas em bancos de dados ou na internet e entregá-las em uma carta psicografada. Máira foi procurada, mas não aceitou gravar entrevista.







