A Polícia Federal investiga o fundo offshore Havengate Development Fund LP, registrado no Texas, por suspeitas relacionadas a transferências feitas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A apuração busca esclarecer se parte dos recursos foi usada para custear Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Flávio afirma que o dinheiro foi destinado integralmente à produção de Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro. Em entrevista à GloboNews, na quarta-feira (14/5), o senador declarou: “Não foi para o Eduardo Bolsonaro. Todos os recursos que foram aportados neste fundo, que é específico para a produção do filme, foram usados integralmente para fazer o filme”. Na sexta-feira, ele voltou a negar que o irmão tenha sido beneficiado e disse que Eduardo se mantém com uma doação do pai e reservas próprias.
Transferências e registros do fundo
Documentos financeiros apontam que, entre fevereiro e maio de 2025, Vorcaro repassou US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) a Flávio, em seis operações. Uma ordem de pagamento no valor de US$ 2 milhões e uma tabela de pagamentos indicam que uma parcela desse total foi transferida pela Entre Investimentos e Participações para o Havengate Development Fund LP.
A Entre é liderada por Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, que foi alvo da segunda fase da operação Compliance Zero. A investigação apura suspeitas de fraudes financeiras e lavagem de dinheiro envolvendo o Banco Master e Vorcaro. Em março deste ano, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial da Entrepay Instituição de Pagamento e, por extensão, da Acqio Adquirência e da Octa Sociedade de Crédito Direto, integrantes do Conglomerado Entrepay, controlado pela Entre Investimentos.
As autoridades também passaram a investigar se Vorcaro seria um dono oculto da Entre. A empresa nega ter vínculo societário, de controle ou de governança com o ex-banqueiro.
Registros do Controlador de Contas Públicas do Texas mostram que o Havengate tem como agente legal o escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC, de Paulo Calixto, advogado de Eduardo nos Estados Unidos. O fundo aparece como propriedade da Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo endereço comercial do escritório, em Dallas.
A empresa tem Paulo Calixto e o corretor de imóveis Altieris Santana como integrantes do quadro societário. Santana também é sócio da Calixsan Capital Management e atua como agente imobiliário na Sanmo Realty. Calixto é advogado especializado em imigração e ajudou Eduardo em seu processo de visto nos Estados Unidos.
Relação com Dark Horse
Eduardo vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025. Na última segunda-feira (11/5), a Procuradoria-Geral da República pediu a condenação do ex-deputado por coação no curso de processo. A acusação afirma que ele articulou, a partir daquele país, sanções contra o Brasil e autoridades brasileiras para tentar influenciar o julgamento de Jair Bolsonaro por golpe de Estado.
Em 2025, Jair Bolsonaro enviou R$ 2 milhões ao filho nos Estados Unidos. Na ocasião, o Supremo Tribunal Federal considerou o repasse um indício da articulação entre os dois para interferir na atuação do Judiciário brasileiro.
Eduardo nega ter recebido dinheiro de Vorcaro e afirma que apenas cedeu seus direitos de imagem para o filme. Ele também declarou ter investido R$ 350 mil no início da produção, sendo reembolsado após a entrada de investidores. Segundo o ex-deputado, naquele período ele atuava como diretor executivo do projeto, mas deixou a função quando a produção passou a ser estruturada como fundo de investimento.
Mario Frias, apontado como responsável pela produção-executiva ao lado de Eduardo em um contrato de novembro de 2023, também nega que o ex-deputado tenha exercido essa função ou recebido valores do fundo.
Dificuldade de rastreamento
Fundos offshore são estruturas de investimento registradas fora do país de residência do investidor. Em algumas jurisdições, os registros podem não revelar os beneficiários finais, dificultando a identificação dos donos dos recursos.
O auditor fiscal Roberto Alvarez, diretor financeiro do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil, compara esse tipo de estrutura a um “CNPJ de papel”. Já o auditor fiscal Marcelo Lettieri afirma que a investigação de fundos nos Estados Unidos depende de cooperação com o FBI ou com instituições americanas.
A dificuldade está relacionada ao fato de os Estados Unidos não participarem do Common Reporting Standard (CRS), padrão internacional criado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico para o compartilhamento de informações tributárias e financeiras. O Brasil aderiu formalmente ao modelo em 2016.
Nos Estados Unidos, o Foreign Account Tax Compliance Act (Fatca), em vigor desde 2010, obriga instituições financeiras estrangeiras a informar às autoridades americanas dados sobre contas de cidadãos dos Estados Unidos. A regra não estabelece o compartilhamento automático, por parte dos Estados Unidos, de informações sobre estrangeiros que investem no país.
Para Alvarez, ainda é necessário esclarecer a origem dos valores movimentados entre Vorcaro, Flávio e o Havengate, além de verificar se houve recolhimento de tributos e eventual infração legal.








