RIO DE JANEIRO — A chegada ao Brasil colocou Ramiro Martínez diante de um desafio que foi além do idioma: interpretar Nacho, jogador de futebol de Jogada de Risco, série original do Globoplay. Para construir o personagem, o ator argentino precisou trabalhar o físico, observar a rotina emocional dos atletas e encontrar maneiras de transmitir conflitos profundos em português.
A preparação física durou cerca de quatro meses, com foco nas pernas e mudanças nas proporções de seus treinos. A alimentação não exigiu grandes alterações. O visual também passou por uma transformação: Martínez ficou loiro e completamente depilado para o papel. Ele conta que levou alguns dias para se reconhecer diante do espelho.
As cenas de nudez também chamaram a atenção nas redes sociais. O ator afirma que recebeu milhares de mensagens e passou a lidar com mais cantadas, mas destaca que as sequências têm uma função dramática na história. “A nudez está ali por uma razão dramática. Não é a nudez que me interessa, é aquilo que ela revela sobre o personagem”, afirmou.
As gravações foram preparadas com o diretor Bruno Safadi e a coordenadora de intimidade Eduarda Azevedo. Segundo Martínez, a equipe adotou sets reduzidos e manteve uma comunicação constante para garantir segurança durante o trabalho.
Uma nova etapa profissional
Antes de se dedicar à atuação, Martínez era formado em administração de empresas e trabalhou na área por alguns anos. A mudança começou depois de uma sugestão de um antigo chefe, que também é dramaturgo na Argentina. Em uma aula de teatro, o ator percebeu que poderia usar sua capacidade de adaptação para criar personagens e decidiu seguir outro caminho.
Nascido em Choele Choel, o artista passou praticamente toda a infância em Buenos Aires, para onde se mudou quando tinha um ano de idade. A relação com a natureza permaneceu importante, e ele diz ter encontrado no Rio de Janeiro uma combinação de verde e mar que ajudou na adaptação ao país.
A carreira na Argentina inclui trabalhos em El Marginal, Ringo e Los Protectores, além de experiências no teatro. Em Quinto Round, interpretou um lutador e passou por uma preparação física intensa. Depois de um sparring pesado, ficou exausto e levou consigo uma ideia que se tornou um mantra: poderia cair sete vezes e se levantar oito.
Nacho, porém, representou uma transformação diferente. Foi a primeira vez que Martínez viveu uma experiência tão intensa atuando em português e dentro de uma cultura diferente da sua. O maior obstáculo, segundo ele, não foi apenas falar outro idioma, mas traduzir a complexidade do personagem em pouco tempo, às vezes com um único olhar.
A adaptação ao Brasil
O desejo de trabalhar no país já fazia parte dos planos do ator. A oportunidade veio com Jogada de Risco, e Martínez afirma que não considera ter deixado para trás a carreira argentina. Para ele, a mudança representa a continuidade de tudo o que viveu antes.
Entre os colegas que ajudaram nesse processo estão Cauã Reymond, Cauê Campos e Mariana Sena. Um dos momentos que fizeram o ator sentir que começava a pertencer ao país aconteceu enquanto dançava e cantava pagode com Cauê Campos.
A parceria com Cauã Reymond também teve um significado especial. Martínez havia acompanhado Avenida Brasil na Argentina por indicação de um produtor da Telefe e, anos depois, passou a trabalhar ao lado do ator. Ele diz ter encarado essa oportunidade com preparação e leveza.
Nas redes sociais, a repercussão das cenas de nudez aumentou o número de mensagens ousadas. Martínez reconhece a mudança, mas prefere não revelar os exemplos mais criativos. Solteiro, afirma estar sem pressa e concentrado na fase profissional, na descoberta do país e na construção de uma nova etapa pessoal.
Futebol além do personagem
O futebol já fazia parte da vida do ator antes da série. No Brasil, ele escolheu o Flamengo; na Argentina, torce pelo Independiente. Para interpretar Nacho, no entanto, precisou observar o esporte por outro ângulo, considerando a pressão sobre os jogadores, a exposição pública e a relação com as torcidas.
A Copa do Mundo de 2026 foi acompanhada por Martínez no Brasil. Ele torceu por Messi e entrou na rivalidade entre argentinos e brasileiros com bom humor. Longe da Argentina em alguns momentos, descreveu a experiência como solitária, mas também especial, por acompanhar a competição no país que hoje considera sua casa.







