O dilema apresentado por “Precisamos Falar” não se resume à escolha entre proteger os filhos e procurar a Justiça. Para o elenco, o crime cometido pelos adolescentes também expõe valores familiares, desigualdades sociais e a dificuldade de reconhecer a humanidade de quem está distante da própria realidade.
O drama psicológico estreia nos cinemas nesta quinta-feira (24), com direção de Pedro Waddington e Rebeca Diniz. A história é baseada no romance “O Jantar”, de Herman Koch.
Um crime que muda a visão sobre os filhos
Na trama, Sandra e Paulo, interpretados por Marjorie Estiano e Alexandre Nero, descobrem que o filho participou de um ataque ao lado do filho de Celso e Anna, vividos por Emílio de Mello e Hermila Guedes. A vítima é uma mulher em situação de rua. As câmeras de segurança não identificam os responsáveis, mas os pais sabem o que aconteceu e precisam discutir como agir.
Para Hermila, a revelação obriga os adultos a enxergar aspectos dos filhos que permaneciam fora do ambiente familiar. A atriz afirma que foi preciso uma brutalidade para que esses pais percebessem quem os adolescentes eram. Ao mesmo tempo, ela destaca que mães e pais não conseguem controlar todas as escolhas dos filhos e, em algum momento, precisam confiar na educação que ofereceram.
Alexandre Nero entende que Paulo começa a notar o próprio afastamento do filho. Na visão do ator, o personagem se depara com um adolescente que não conhecia e percebe uma semelhança incômoda entre o temperamento dele e o comportamento do jovem.
A preparação do elenco envolveu leituras com os diretores e com Sérgio Goldenberg, além de conversas durante o desenvolvimento do roteiro, os ensaios e as filmagens. Marjorie contou que o processo começou quando Rebeca e Pedro ainda trabalhavam no texto. Emílio destacou a possibilidade de os atores trocarem ideias com a direção e defendeu que o cinema reserve mais espaço para ensaios.
Valores em conflito
Marjorie avalia que a situação coloca à prova crenças que os personagens acreditavam ter bem definidas. Uma pessoa pode se considerar consciente da desigualdade social, por exemplo, mas ser confrontada com uma decisão que revela a base — ou a fragilidade — desse valor.
A atriz também aponta que a confiança nas instituições interfere na escolha dos pais. O receio de que o filho sofra violência ao ser entregue ao Estado aparece como uma preocupação de Sandra, embora a personagem também faça comparações distorcidas ao falar de jovens acostumados à violência.
Emílio ressalta que o debate reúne temas diferentes: amor pelos filhos, educação, responsabilidade, lei e desigualdade social. Por isso, ele considera difícil afirmar com segurança o que faria no lugar dos personagens. A decisão envolve o limite moral de cada pessoa e as circunstâncias que cercam o caso.
Hermila se identifica com a posição de Anna, que defende a realização da Justiça, mas reconhece que a educação não garante controle absoluto sobre os atos dos filhos. A personagem e os demais adultos precisam lidar com a distância entre aquilo que acreditavam ter ensinado e as atitudes dos adolescentes.
A distância em relação à vítima
A mulher morta não participa das conversas dos pais, e essa ausência também é discutida pelos atores. Hermila relaciona o ponto de partida do filme ao debate sobre o valor atribuído à vida humana e diz que o roteiro a levou a rever as próprias crenças.
Nero observa que os adolescentes pertencem à classe média, enquanto a vítima é uma mulher sem teto. Para o ator, essa diferença cria um distanciamento que impede os meninos de reconhecerem a vítima como alguém cuja vida tem o mesmo valor que a deles. Ele também associa o comportamento dos jovens à disputa por liderança, ao machismo e à tentativa de demonstrar poder diante do grupo.
Na interpretação de Nero, os adolescentes podem não ter planejado matar, mas trataram o ataque como uma brincadeira. Essa leitura evidencia como a falta de empatia e o afastamento social alteram a percepção sobre a gravidade da violência.
Polarização além da tela
O conflito entre os casais também levou o elenco a refletir sobre a maneira como as pessoas discutem na vida pública. Nero relaciona a desumanização da vítima ao comportamento de quem se fecha em bolhas nas redes sociais e passa a enxergar o outro como inimigo. Para ele, a mediação por telas dificulta a escuta e deixa os argumentos mais agressivos.
Marjorie define a divergência entre os personagens como um debate “atemporal, universal e necessário”. A atriz afirma que o país e o mundo ficaram mais divididos em polos e que participar do filme permitiu pensar sobre o tema também fora da atuação.
Questionado sobre a possibilidade de alguns personagens parecerem caricatos, Nero rejeita essa leitura. Ele cita Donald Trump e Elon Musk para dizer que a realidade pode ser mais exagerada do que a ficção. Hermila concorda, mas afirma que procura construir suas personagens a partir da humanidade delas, deixando espaço para que cada espectador faça a própria interpretação.







