Froid colocou a vulnerabilidade no centro de “Humor Negro”, álbum em que reassume o controle da produção e abandona personagens usados em trabalhos anteriores. O rapper mineiro produziu oito das 11 faixas do disco, o maior volume de produção própria de sua carreira.
A mudança também passou pela rotina. Depois de perceber que sua relação com a música havia se afastado da identidade dos primeiros trabalhos, Froid voltou a treinar, estudar teclado e produção, dormir cedo e buscar samples. Chegou a comprar 200 vinis para alimentar o processo criativo.
Da música de praia à frustração exposta
O projeto começou com outra proposta. A intenção inicial era fazer músicas de praia, com experimentos de sonoridades caribenhas. Durante a criação, porém, o artista passou a refletir sobre a forma como as emoções de pessoas negras são tratadas no Brasil, especialmente quando elas alcançam reconhecimento e estabilidade financeira.
Froid identificou em si a pressão para demonstrar felicidade depois de conquistar determinados espaços. A partir daí, desistiu de seguir com o álbum de praia e decidiu transformar em música sentimentos como tristeza, irritação e frustração.
A faixa “Endrick” teve papel importante nesse processo. Nela, o rapper fala sobre expectativas que não se realizaram e compara suas próprias inseguranças às do jogador. A música serviu como uma maneira de retirar a imagem de alguém que sempre dá conta de tudo. “Eu não sou f*dão não, velho. Eu sou igual o Endrick”, afirmou Froid.
O clipe da faixa também trouxe o uso de inteligência artificial para a edição. O artista explicou que gravou o vídeo com recursos tradicionais e recorreu à tecnologia como efeito visual, para acrescentar elementos que não havia conseguido registrar durante as filmagens.
A volta da “magia obscura”
Com Froid novamente à frente das batidas, a estética que ele chama de “magia obscura” reapareceu sem ser planejada. A sonoridade do álbum reúne boombap, trechos acústicos, dancehall e afrobeats, além de referências caribenhas. Para o rapper, esses estilos se conectam por fazerem parte de suas referências de músicas negras.
A produção mais autoral também mudou a forma de construir o disco. Sem precisar negociar cada escolha artística, Froid buscou fazer uma obra guiada apenas pelo próprio gosto. Pela primeira vez em um álbum, não criou personagens para esconder o que sentia.
As participações de Ciça, Nath e Major RD seguem essa mesma lógica. Froid encontrou os trabalhos de Ciça e Nath na internet e se aproximou deles de forma espontânea. Já a presença de Major RD surgiu da necessidade de uma troca específica dentro da batida.
“Humor Negro” reúne as impressões do artista sobre o momento que vive e sobre a maneira como é estar em sua posição. Apesar de considerar o álbum um registro importante de suas percepções atuais, Froid não o trata como encerramento da carreira. Ele pretende passar um ano, dois, viajando e conhecendo coisas novas antes de fazer outro disco.
Enquanto isso, o rapper planeja lançar vídeos e videoclipes ligados ao projeto. Depois de reencontrar prazer no processo, ele afirma que não tem pressa para criar a próxima obra.







