A revista Veja reconheceu ter retirado cinco intervenções do interlocutor de Daniel Vorcaro, somando 15 segundos, de uma gravação usada em denúncia sobre supostos pagamentos ao documentário “Lula”, de Oliver Stone. A publicação alegou que os cortes preservariam o sigilo da fonte, mas não apresentou o áudio integral nem uma perícia independente que confirmasse a autenticidade do material.
A defesa da revista também tratou o reconhecimento da voz de Vorcaro por seu advogado como confirmação do áudio. Daniel Bialski, porém, declarou que “A voz realmente é dele em um dos áudios” e disse desconhecer quando e em quais circunstâncias a gravação foi feita. O advogado acrescentou que apenas o banqueiro poderia confirmar ou negar os fatos narrados. Ele também afirmou que não atuava na defesa de Vorcaro durante as negociações, desconhecia o anexo mencionado e nunca tinha ouvido do cliente qualquer referência ao assunto.
Versões diferentes sobre o documento
A reportagem de capa afirmou que Vorcaro havia entregue à Procuradoria-Geral da República um anexo com detalhes de pagamentos de aproximadamente R$ 30 milhões em espécie para o filme. A publicação relacionou a entrega a junho, durante a 2ª tentativa de colaboração premiada, e disse que a Procuradoria teria descartado o material por considerar difícil comprovar pagamentos em dinheiro vivo.
Nos esclarecimentos divulgados depois, a revista mudou a descrição. Passou a dizer que os advogados apenas relataram as acusações e prometeram apresentar provas se a delação fosse aceita. Como a negociação não avançou, os documentos não teriam sido entregues. A Procuradoria informou que recebeu as propostas formalizadas pela defesa na forma apresentada, sem recusas prévias. A Polícia Federal negou ter recebido depoimentos, anexos, documentos ou informações com o conteúdo descrito.
A própria revista ainda publicou uma declaração de Robson Bonin segundo a qual Vorcaro teria apresentado o relato a investigadores da Polícia Federal e da Procuradoria. “O Daniel Vorcaro apresentou esse relato aos investigadores da Polícia Federal e da PGR”, afirmou o jornalista. A declaração entra em conflito com a explicação de que a reportagem nunca havia dito que o banqueiro levara a confissão à Polícia Federal.
Regras previdenciárias e cifras
Outro ponto questionado envolve a chamada lista exaustiva do Ministério da Previdência, na qual o Banco Master teria aparecido em 29 de abril de 2024. A revista apresentou a inclusão como uma abertura para recursos de Previ, Petros e Postalis. O documento, porém, define critérios para aplicações dos Regimes Próprios de Previdência Social, voltados à aposentadoria de servidores de estados e municípios. Previ, Petros e Postalis fazem parte da previdência complementar fechada e não estão submetidos a essa autorização.
Mesmo para os regimes alcançados pela lista, a presença no cadastro não substitui análise de risco, credenciamento e avaliação das instituições. Na versão atualizada em 6 de maio de 2024, aparece a Master S.A. Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários, integrante do conglomerado Banco Master. O Banco Master S.A. não consta como instituição individualmente habilitada para emitir ativos de renda fixa. Já na relação de abril de 2025, o banco aparece nominalmente entre os emissores elegíveis.
A própria cobertura informa que os investimentos pretendidos não foram concluídos. Vorcaro teria passado mais de um ano tentando obter recursos de Previ, Petros e Postalis, enquanto uma negociação de R$ 500 milhões com a Caixa Asset também fracassou. Mensagens divulgadas mostram cobranças até agosto de 2025, quando ele desistiu das tratativas.
Os valores atribuídos ao filme também variam. A reportagem fala em aproximadamente R$ 30 milhões, enquanto o áudio sugere uma quantia superior ao dobro do valor investido em “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro que teria recebido mais de R$ 60 milhões. Em um trecho, o dinheiro é apresentado como pagamento ao Instituto Lula; em outro, a quantia destinada ao filme aparece separada de pagamentos adicionais à instituição. O Instituto Lula e os realizadores negaram ter recebido recursos de Vorcaro. Oliver Stone afirmou que o filme não tem patrocínio do Instituto Lula ou de investidores brasileiros.
O que os registros mostram
Mensagens documentam contatos com intermediários, tentativas de reuniões e negociações para investimentos. Um repasse de R$ 500 mil a Júlio Cezar também foi confirmado em conversas, com previsão de desconto em negócios futuros. Esse registro, contudo, não comprova que o valor tenha chegado a pessoas acusadas de receber propina nem que tenha sido pago por uma decisão ilegal.
O fundo previdenciário de Aparecida de Goiânia investiu R$ 40 milhões em títulos do Master em junho de 2024, operação investigada pela Polícia Federal. Já Previ, Petros, Postalis e Caixa Asset não concretizaram os investimentos pretendidos. Mensagens extraídas do celular de Vorcaro, referentes ao período de produção do filme, não registraram transferências para o longa. Foram identificadas conversas sobre produções relacionadas a Bolsonaro e Temer.
A estimativa do suposto esquema também mudou. A reportagem original mencionou R$ 10 bilhões, sendo R$ 1 bilhão em propinas e R$ 9 bilhões para o Banco Master. Em outro texto, a revista descreveu uma estrutura de R$ 8 bilhões, com comissão de 10% para os envolvidos, sem explicar a diferença entre os cálculos.
A Procuradoria informou que Vorcaro nunca prestou depoimento oral à instituição e que as negociações ocorreram por meio de advogados. A origem e a integridade da gravação continuam sem confirmação independente, e a revista não apresentou comprovação dos supostos pagamentos ao documentário.







