O antipetismo se consolidou entre parcelas da classe média brasileira ao longo de duas décadas. O grupo mais associado a esse movimento está nas classes B2 e C1, formadas por famílias que trabalham, pagam impostos e tentam manter um padrão de vida sem a tranquilidade financeira dos mais ricos.
A ruptura com o Partido dos Trabalhadores começou com as denúncias do mensalão, em 2005. Antes disso, o PT mantinha uma relação importante com a classe média urbana, profissionais escolarizados, servidores públicos, sindicalistas e setores intelectuais. A eleição de Lula, em 2002, reuniu diferentes faixas de renda em torno da expectativa de mudança.
Depois da crise, parte dos eleitores intermediários se afastou do partido. O PT preservou força entre os segmentos de menor renda, especialmente nos grandes bolsões de pobreza do Nordeste, enquanto parcelas da classe média passaram a apoiar candidaturas de oposição.
Uma classe pressionada pelo custo de vida
De acordo com o Critério Brasil de 2026, da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP), a renda média domiciliar mensal é de R$ 7.874,72 na classe B2 e de R$ 4.526,88 na classe C1. Os valores correspondem à renda das famílias, não à de indivíduos.
Nas regiões metropolitanas analisadas pela entidade, a classe B2 representa aproximadamente 19% dos domicílios. Já as classes C1 e C2, somadas, correspondem a cerca de 52%.
Esse grupo não é formado por uma elite protegida das dificuldades econômicas. São famílias que precisam equilibrar despesas com moradia, educação, saúde, transporte e segurança. Quando a escola pública não atende às expectativas, parte da renda pode ser direcionada à mensalidade de uma instituição particular. O mesmo ocorre com planos de saúde, condomínio, vigilância e outros serviços.
A consequência é o comprometimento do orçamento antes do fim do mês. Mesmo com rendimento maior que o dos mais pobres, essa parcela da população pode ter pouca margem financeira. O consumo de serviços ganhou espaço depois da pandemia, enquanto o endividamento passou a fazer parte da organização de muitos domicílios.
Essa experiência alimenta a sensação de que o esforço não se transforma em melhora proporcional. A prosperidade é medida pelo dinheiro que sobra depois das contas, e frequentemente essa sobra é pequena.
Do PSDB ao bolsonarismo
Nas eleições seguintes ao mensalão, muitos desses eleitores encontraram representação no PSDB. Votaram em José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves. Com o desgaste da oposição tradicional, parte deles se aproximou de Jair Bolsonaro.
A mudança de candidato e de partido não eliminou o elemento central desse comportamento: a rejeição ao PT. Em 2006, o antipetismo estava fortemente ligado às denúncias de corrupção. Depois, passou a incorporar críticas à economia, aos serviços públicos e à capacidade do governo de produzir desenvolvimento.
Em 2018, o bolsonarismo ofereceu uma identidade política diferente da apresentada pelo PSDB. O discurso combinava valorização do empreendedorismo e da autonomia individual com segurança pública, conservadorismo e rejeição ao sistema político tradicional.
A expansão do trabalho autônomo, da prestação de serviços, do empreendedorismo e das plataformas digitais também alterou a relação dessa classe com a política. O trabalhador pode acumular funções como empregado, prestador de serviços, pequeno empreendedor e informal em atividades complementares.
Quem precisa conquistar clientes, negociar contratos, controlar custos e assumir riscos tende a observar com atenção temas como tributação, burocracia, crédito e oportunidades econômicas. A busca por estabilidade continua existindo, mas convive com a necessidade de encontrar novas formas de aumentar a renda.
O bolsonarismo não criou o antipetismo. Ele encontrou uma rejeição já estabelecida e a transformou em uma nova identificação eleitoral.
A disputa em 2026
Na leitura apresentada sobre a eleição, Flávio Bolsonaro passou a concentrar parte importante da expectativa de alternância entre eleitores que não se reconhecem no governo Lula. Isso não significa necessariamente entusiasmo com a candidatura. Para uma parcela desse público, o campo bolsonarista aparece como a principal alternativa ao petismo.
Votar por identificação é diferente de votar por oposição. No primeiro caso, há uma conexão afirmativa com um projeto. No segundo, a escolha pode estar baseada sobretudo na rejeição à continuidade de um governo. Nas classes B2 e C1, essa diferença ajuda a compreender a força do antipetismo.
O PT também enfrenta movimentos distintos em outros grupos. O lulismo mantém sua força entre os mais pobres, enquanto parte da esquerda urbana, principalmente entre jovens escolarizados e setores progressistas, encontra no PSOL uma representação mais próxima de suas prioridades culturais e identitárias.
Renda, porém, não determina automaticamente o voto. Há eleitores petistas nas classes B2 e C1 e eleitores bolsonaristas entre os mais pobres. Escolaridade, religião, território, geração e trajetória familiar também influenciam as escolhas. A intensidade do antipetismo precisa ser verificada pelas pesquisas, e não presumida apenas pela condição econômica.
A hipótese central é que a classe média-média passou a enxergar sua relação com o Estado por meio de um desequilíbrio persistente entre esforço e recompensa. É uma parcela que trabalha, assume riscos, contrai dívidas e tenta oferecer melhores condições à família, mas nem sempre percebe avanço proporcional no padrão de vida.
O mensalão abriu a ruptura, a crise econômica ampliou o distanciamento e o bolsonarismo ofereceu uma identidade política. Enquanto permanecer a sensação de que é preciso trabalhar mais para preservar o mesmo consumo, a rejeição ao PT continuará sendo uma força relevante entre esses eleitores.







