A mesma imagem pode provocar interpretações muito diferentes de acordo com aquilo que quem vê associa ao que está diante dos olhos. Um vestido e um tênis foram entendidos por algumas pessoas como um enforcado e o símbolo da Ku Klux Klan. Depois que essa leitura é apresentada, torna-se difícil deixar de enxergar essas referências na fotografia.
Algo parecido aconteceu com Vini Jr. e Mbappé, companheiros de Real Madrid. Os dois dobraram uma camiseta de apoio aos moradores de Ceuta, cidade espanhola localizada na África, que foi invadida em dois dias por 72 mil imigrantes que fugiam de Marrocos.
A população local de Ceuta é de 83 mil habitantes. A maior parte dos imigrantes voltou, mas entre cinco e seis mil marroquinos permaneceram na cidade, tentando construir uma vida melhor na Europa africana.
A atitude dos jogadores foi interpretada como rejeição ao gesto de solidariedade. A Associação Comercial de Valência demonstrou apoio aos moradores de Ceuta, conhecidos como “Caballas”, mas a presença de dois imigrantes que atuam na Espanha entre os jogadores que dobraram a camiseta gerou outra leitura.
Vestir uma camiseta não significa obrigatoriamente concordar com a mensagem. Ainda assim, a reação mostra como é difícil prever o que as pessoas vão pensar diante de uma imagem ou de uma peça de roupa. Em alguns casos, dobrar a camisa parece uma forma de evitar interpretações.
A repercussão desses episódios também contrasta com a atenção dedicada à Guerra da Ucrânia, iniciada em 2022. O conflito deixou de ocupar o mesmo espaço nas conversas, nas redes sociais e nas capas de sites de notícias. O que não vemos ou não nos afeta tende a perder espaço: a foto pode provocar protestos, enquanto o drone que cai do céu acaba incorporado à paisagem.







