Após seis anos de carreira, a SalDoce apresenta uma fase mais direta em Inofensiva Flor. O álbum, lançado em 20 de agosto, marca a primeira vez que o trio se posiciona explicitamente contra a homofobia, o machismo e a misoginia. A mudança também aparece na música: instrumentos acústicos, músicos em estúdio e arranjos mais amplos substituem o minimalismo do primeiro álbum, lançado em 2026.
Formada por Brenda Luce, Fernanda Francis e Marianna Eis, a SalDoce ganhou espaço com harmonias delicadas, releituras de clássicos da MPB e um som leve. Ao longo da carreira, o grupo conquistou mais de meio milhão de seguidores, mas as integrantes dizem que já não se reconhecem apenas nessa imagem. “Somos mulheres de 30 anos que querem falar”, resume Marianna.
Um álbum construído a partir de perguntas
Para criar Inofensiva Flor, o trio começou definindo a sonoridade, as referências e os temas do projeto. Marisa Monte, Vanessa da Mata e Rita Lee estavam entre as artistas usadas como inspiração. A SalDoce também reuniu compositoras em um encontro imersivo chamado pelas integrantes de “camping só de mulheres artistas”.
O processo partiu de um briefing sobre os assuntos que elas queriam abordar e resultou em 60 composições. Depois de sessões de escuta, triagem e conversas sobre os rumos do trabalho, dez faixas foram escolhidas. Produzido por Ricardo Rodrigues, o álbum busca uma sonoridade viva, com arranjos pensados para destacar a personalidade de cada música.
A faixa de abertura, “Fera Domesticada”, dá nome ao disco a partir do verso “Sei que eu pareço inofensiva flor, uma fera domesticada”. A canção sintetiza a proposta de assumir diferentes facetas sem a obrigação de escolher entre força e delicadeza, sensibilidade e intensidade, romantismo e visceralidade.
Liberdade, amor e posicionamento
O posicionamento político aparece de forma mais clara em músicas como “Não Sento à Mesa”, que trata a homofobia como uma violência. A decisão de falar sobre esses temas também foi colocada em prática fora das canções. Depois de uma publicação sobre o casamento homoafetivo de Marianna Eis, o grupo perdeu três mil seguidores e, mais tarde, ganhou mais de 30 mil.
As dez faixas percorrem diferentes experiências. “Ego Temperado” aborda vaidade, sedução e excessos com humor. “Planos” retoma o romantismo e a possibilidade de voltar a acreditar no amor. “Dançar com a Vida” fala sobre seguir em frente diante dos desvios, enquanto “O Que Sobra” celebra um relacionamento que amplia, em vez de limitar, quem se é.
“Invencíveis” apresenta uma ideia de força que permanece mesmo quando tudo ao redor está em caos. “Visceral” trata da pressão para que mulheres demonstrem força o tempo inteiro e do reconhecimento dos próprios limites. “Cravo e Canela” recupera o encanto das primeiras paixões, e “Na Pele” encerra o álbum em clima de celebração.
O amor continua sendo um eixo importante para o trio, mas aparece associado também à força. A SalDoce afirma que não pretende abandonar esse tema; a intenção é abordá-lo de maneiras diferentes a cada lançamento.
Canções também ganham imagens
Todas as faixas de Inofensiva Flor receberam vídeos no YouTube. Os trabalhos foram pensados como extensões das narrativas das músicas, com cenários, fotografia, figurino e expressão corporal. A direção é de Fernando Duarte, com direção artística de Renan Andrade e direção de movimento de Clarissa Barbio.
O projeto registra em vídeo elementos que já faziam parte das apresentações ao vivo, como banda, movimento e dança. Para Brenda, essa dimensão ajuda o público a perceber a energia do trio além do que é possível ouvir no Spotify.
Mesmo com as mudanças, a SalDoce mantém a harmonização entre as três vozes como parte central de sua identidade. A conclusão das integrantes é que o grupo resulta da união das vivências e referências musicais de cada uma — sem que nenhuma delas precise desaparecer para que as outras sejam ouvidas.







