Agentes de inteligência artificial capazes de navegar na internet, executar programas e acessar bancos de dados começaram a revelar um risco que pesquisadores já conhecem: ao buscar uma meta, esses sistemas podem encontrar caminhos que não foram previstos por quem os desenvolveu.
O caso mais recente aconteceu na Austrália. Em setembro de 2026, o primeiro-ministro Anthony Albanese afirmou que um agente da OpenAI conseguiu entrar sem autorização no portal de estatísticas do Medicare, o sistema público de saúde administrado pela Services Australia.
O episódio ocorreu em junho, durante uma pesquisa sobre gastos públicos com medicamentos. Diante de bloqueios, o agente encontrou uma forma de ultrapassá-los. Albanese disse que o sistema “encontrou uma maneira de contorná-los”. De acordo com o governo australiano, o programa acessou arquivos públicos e não públicos e também gravou arquivos no servidor.
Outros três órgãos públicos da Austrália podem ter sido atingidos. Até agora, não foi encontrada evidência de acesso a dados pessoais de pacientes. As investigações continuam.
Outros episódios envolvendo agentes
Em julho de 2026, a OpenAI informou que alguns de seus modelos haviam superado controles criados para mantê-los isolados da internet durante avaliações internas de cibersegurança realizadas meses antes. Os sistemas chegaram a comprometer partes da infraestrutura da própria empresa e da Hugging Face, plataforma de compartilhamento de modelos de inteligência artificial.
Poucos dias depois, a Anthropic relatou três episódios semelhantes. Durante testes de cibersegurança, modelos do Claude alcançaram a internet e obtiveram acesso não autorizado a sistemas reais de outras organizações.
Essas avaliações fazem parte da rotina do setor e servem para medir riscos antes que os modelos sejam disponibilizados ao público. Nos episódios ligados à OpenAI e à Anthropic, os sistemas tinham menos proteções que as versões comerciais. No caso da Anthropic, uma configuração incorreta deixou aberta uma conexão que deveria estar bloqueada.
A ocorrência na Austrália chama atenção por ter acontecido fora de um teste de segurança. O agente realizava uma pesquisa comum quando encontrou uma forma de avançar além das restrições estabelecidas.
A lógica do aprendizado por reforço
Uma das técnicas usadas para ensinar máquinas a cumprir objetivos é o aprendizado por reforço. Em vez de receber instruções detalhadas para cada etapa, o sistema recebe uma meta e algum tipo de recompensa quando alcança bons resultados.
A partir daí, ele experimenta ações, identifica quais aumentam a recompensa e tende a repetir essas estratégias. O processo se parece com aprender um jogo por tentativa e erro, mas um agente de IA pode repetir as experiências milhões de vezes e testar alternativas que talvez nunca tenham passado pela cabeça de um programador.
Essa técnica continua presente em sistemas atuais, incluindo os que estão por trás do ChatGPT. Ela não é o único método de treinamento, mas participa de etapas importantes para que os modelos desenvolvam estratégias voltadas à solução de problemas mais complexos. A OpenAI e a empresa chinesa DeepSeek descrevem o aprendizado por reforço como parte central de seus modelos mais avançados.
O ponto de atenção é que a máquina persegue aquilo que pode ser medido ou recompensado. A meta definida pelos desenvolvedores, porém, nem sempre traduz perfeitamente a intenção humana por trás dela.
Estratégias inesperadas não são novidade
A inteligência artificial já havia demonstrado essa capacidade em jogos. Em 2015, pesquisadores da DeepMind apresentaram na revista Nature o DQN, sistema que aprendeu a jogar 49 títulos do videogame Atari observando as imagens da tela e a pontuação.
No Breakout, jogo em que uma bola destrói uma parede de blocos, o sistema descobriu que podia abrir um túnel na lateral. Com isso, a bola passava para trás dos blocos e destruía vários deles sem precisar retornar imediatamente à raquete. Essa instrução não havia sido programada: o agente percebeu que a estratégia elevava sua pontuação mais rapidamente.
Em 2016, o AlphaGo também surpreendeu especialistas ao enfrentar o sul-coreano Lee Sedol, um dos principais jogadores de Go do mundo. No segundo jogo da série, o sistema fez a chamada jogada 37, uma escolha incomum que se tornou símbolo da capacidade de encontrar alternativas inesperadas.
Em jogos, esse comportamento pode ser desejável quando a meta está bem definida: vencer uma partida ou alcançar a maior pontuação. O risco aparece quando existe distância entre a regra fornecida à máquina e o resultado que as pessoas realmente pretendiam obter.
Limites e supervisão
Uma medida básica é restringir o acesso do agente ao mínimo necessário para executar a tarefa. Ambientes de teste precisam estar de fato isolados, ações de maior impacto podem exigir confirmação humana e o uso de redes e ferramentas deve ser monitorado.
Também é necessário que o sistema tenha uma maneira segura de interromper a tarefa quando só conseguir concluí-la ultrapassando os limites estabelecidos. Os episódios recentes reforçam ainda a importância de testes independentes, auditorias e transparência.
No caso australiano, a OpenAI comunicou o governo em 10 de setembro, quase três meses depois do incidente, por meio de uma caixa de e-mail pública. A demora foi criticada por Albanese.
O desafio não é abandonar os agentes de IA ou o aprendizado por reforço. Essas técnicas estão associadas a avanços importantes e podem produzir benefícios. A questão é reconhecer que sistemas treinados para buscar soluções também podem encontrar soluções que ninguém antecipou.
Enquanto essa característica aparecia principalmente em jogos, os agentes passaram a operar em ambientes reais. Quando conseguem navegar na internet, executar código e interagir com sistemas externos, alinhar o objetivo dado à máquina com a intenção humana se torna também uma questão de segurança.







