A esquerda brasileira enfrenta o desafio de atualizar suas respostas diante das mudanças sociais e econômicas do país. Uma corrente política historicamente associada à contestação, à defesa de transformações e ao enfrentamento de privilégios passou, em parte, a tratar propostas de mudança como ameaça.
O Brasil de 2026 é diferente daquele de 2002. As relações de trabalho, os padrões de consumo, a composição das famílias e as expectativas da classe média mudaram. A tecnologia transformou a economia, novas profissões surgiram e milhões de brasileiros passaram a trabalhar em modelos que não existiam duas décadas atrás.
Trabalho e novas formas de emprego
A legislação trabalhista concentra parte desse debate. A Consolidação das Leis do Trabalho, criada durante o governo de Getúlio Vargas, em 1943, foi um marco nas relações de trabalho no Brasil. A importância histórica da legislação, porém, não impede a discussão sobre sua adaptação a novas realidades.
Durante o debate da reforma trabalhista de 2017, setores da esquerda priorizaram a resistência às mudanças. Havia críticas relacionadas ao risco de precarização, mas a defesa dos direitos acabou associada à preservação dos mecanismos existentes.
Trabalhadores de plataformas digitais, profissionais autônomos, pequenos empreendedores e jovens que prestam serviços para empresas de diferentes países precisam de proteção social, segurança econômica e direitos. Essas demandas, no entanto, não necessariamente cabem nas estruturas criadas para a economia industrial do século passado.
Uma agenda capaz de combinar flexibilidade, produtividade e proteção social poderia ter ocupado esse espaço. Ao não liderar essa discussão, a esquerda deixou que seus adversários conduzissem parte do debate sobre o futuro do trabalho.
Moradia no centro da política
Em outros países, lideranças de esquerda passaram a concentrar suas propostas em problemas concretos, especialmente no custo da moradia. Em Nova York, Zohran Mamdani venceu a eleição para a prefeitura em 2025 com a crise do custo de vida como um dos eixos de sua campanha. O congelamento dos aluguéis de imóveis submetidos à regulação municipal esteve entre suas principais bandeiras.
Em junho de 2026, a autoridade responsável pelos reajustes aprovou o congelamento temporário dos aluguéis de aproximadamente um milhão de apartamentos regulados. A medida colocou no centro da disputa uma preocupação cotidiana: o peso cada vez maior da moradia sobre a renda de quem trabalha.
Na Espanha, o Partido Socialista Operário Espanhol, o PSOE, também tenta transformar a crise habitacional em uma agenda política antes das eleições antecipadas de novembro. Pedro Sánchez procura explorar a insatisfação com os preços dos imóveis e dos aluguéis, embora as pesquisas indiquem dificuldades para os socialistas.
O custo de vida no Brasil
A discussão sobre moradia também atravessa regiões brasileiras que não costumam ser associadas à esquerda. O crescimento econômico de cidades médias e de novas áreas de produção não foi necessariamente acompanhado pela expansão da oferta de imóveis. Com isso, o custo dos aluguéis e dos terrenos aumentou em municípios com bons indicadores econômicos.
Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso, aparece como exemplo dessa contradição. A cidade está em uma das regiões mais dinâmicas do agronegócio, reúne geração de empregos e expansão das atividades produtivas, mas enfrenta pressão habitacional e aumento dos aluguéis.
No primeiro turno da eleição presidencial de 2026, Lucas do Rio Verde deu 74,18% dos votos válidos a Flávio Bolsonaro. A preferência política da população, contudo, não elimina problemas como o pagamento do aluguel, a compra da casa própria e a busca por melhores condições de vida.
O crescimento do agronegócio gerou oportunidades e prosperidade em diferentes regiões, mas também trouxe desafios urbanos. Entre eles estão a expansão desordenada, a pressão sobre a infraestrutura, o aumento do preço dos terrenos e o encarecimento da moradia.
Uma nova leitura da classe média
A mesma lógica vale para a classe média. Pessoas que não se enquadram nas políticas assistenciais, mas também não têm renda suficiente para viver com tranquilidade, enfrentam despesas com impostos, plano de saúde, escola privada, automóvel e habitação.
Depois da pandemia, os padrões de consumo mudaram. Muitas famílias passaram a buscar não apenas bens, mas também serviços, mobilidade, segurança e qualidade de vida. Ao mesmo tempo, o custo dessa estrutura aumentou de forma significativa.
Uma agenda voltada ao Brasil contemporâneo precisaria considerar essas necessidades sem presumir que a identidade política de um eleitor determina suas dificuldades materiais. Eleitores de direita e de esquerda podem enfrentar problemas semelhantes quando o assunto é moradia, serviços e ascensão social.
Isso não exige abandonar a defesa dos trabalhadores, a redução das desigualdades ou a proteção dos mais vulneráveis. Exige reinterpretar essas bandeiras. A proteção trabalhista precisa considerar o século XXI, enquanto a política habitacional deve incluir oferta de imóveis, financiamento, planejamento urbano, mobilidade e acesso ao aluguel.
A discussão sobre desigualdade também precisa alcançar quem trabalha, paga suas contas e ainda não consegue acumular patrimônio. Nesse cenário, a renovação da esquerda depende da capacidade de ouvir antes de classificar, compreender antes de rejeitar e avaliar propostas independentemente do campo político de quem as apresentou.
A mudança, nesse caso, não seria apenas eleitoral. Envolveria a disposição de revisar certezas e voltar a questionar aquilo que parece permanente. Uma força política construída para transformar a realidade perde relevância quando passa a defender, acima de tudo, a preservação do passado.







