A nova formação de turnê do Rush exigiu ajustes na maneira de tocar, ouvir e explicar as músicas da banda. Geddy Lee, Alex Lifeson e Anika Nilles falaram sobre o processo de adaptação da baterista, os desafios do repertório e a admiração do grupo pelo Steely Dan.
Nilles contou que sentiu pressão antes da primeira noite, mas se concentrou na música e na organização. Nos seis meses anteriores, também praticou rotinas para se acalmar. Durante “Xanadu”, uma baqueta escapou no início da música. Ela conseguiu recuperá-la sem interromper a execução e explicou que, como baterista, está acostumada a pegar a próxima oportunidade para continuar.
Lee afirmou que os ensaios passaram por uma mudança importante. No começo, qualquer erro fazia o grupo parar e recomeçar. Mais tarde, os músicos passaram a seguir tocando mesmo diante de imprevistos, como preparação para o que poderia acontecer durante o show.
A conexão com o repertório
Segundo Nilles, as conversas sobre Neil, seu jeito de tocar e a experiência dos músicos com ele ajudaram a entender o que precisava ser adaptado. Para ela, o desafio não estava apenas nas notas, mas na maneira de executá-las. O entrosamento só aconteceu no último dia dos primeiros ensaios.
A baterista também comparou o trabalho no Rush à experiência com Jeff Beck. Naquele contexto, havia mais espaço para improvisação, enquanto as partes de bateria do Rush exigiam maior atenção às composições e às características específicas do repertório.
Lee disse que explicar as músicas para Nilles também foi um processo de aprendizado. Em alguns momentos, ela perguntava em que compasso determinada parte estava, e ele precisava voltar às gravações para contar. O músico percebeu que muitas passagens haviam sido construídas como frases musicais, sem que a banda precisasse nomear ou calcular cada fórmula de compasso durante os ensaios.
Lifeson observou que o estilo de Neil também dependia de deslocamentos sutis de peso e de pequenas mudanças entre os movimentos principais. Para ele, esses detalhes funcionavam como a ligação que mantinha a música unida. Lee acrescentou que até a escolha dos pratos alterava de forma significativa o resultado sonoro.
“Subdivisions” apareceu nos dois ensaios de som mencionados na conversa. Lifeson explicou que a música parece simples, mas tem um arranjo de bateria complexo. Nilles destacou as muitas subdivisões, contagens e mudanças que não ficam evidentes para quem ouve.
Lee também falou sobre a transição entre diferentes fases do catálogo do Rush. Para ele, alternar entre estilos torna o repertório mais revigorante e dá descanso ao cérebro. Nilles observou que, em uma parte de “[Passage to] Bangkok”, a bateria permanece em 4/4 enquanto os outros músicos precisam inverter a métrica.
A influência de outros bateristas
Nilles disse que se sentiu mais conectada às músicas da década de 80 por gostar do período. Ao se preparar para a turnê, estudou a forma de tocar de Neil com um nível de detalhe que ainda não havia aplicado a outro baterista. Ela explicou que costumava absorver ritmos e adaptá-los às próprias ideias, sem seguir integralmente o estilo de uma única referência.
A primeira sessão de preparação de “Xanadu” também mostrou a dimensão da tarefa. Nilles levou três dias para aprender a música de modo que todos os elementos estivessem presentes durante a execução. Depois, conforme compreendeu melhor as características do repertório, passou a aprender as músicas épicas com mais rapidez.
Lee lembrou que Nilles precisava de explicações para trechos que ele e Lifeson executavam de forma intuitiva. O vocalista e baixista comparou a situação a uma experiência anterior com Omar Hakim, quando precisou ensinar uma parte de “YYZ” cantando a passagem para o baterista. Para Lee, transportar esse método para 42 músicas exigia discutir momentos que desafiavam a notação musical.
A admiração pelo Steely Dan
A conversa também passou pelo Steely Dan. Lee disse ser muito fã do grupo e contou que quase deu o nome de Aja à filha em referência ao disco. Lifeson destacou a versatilidade de Skunk Baxter.
Para Lee, o Steely Dan conseguia combinar complexidade, ideias associadas ao jazz e uma música facilmente assimilada. Ele relacionou essa capacidade à própria transformação do Rush ao longo do tempo, resumindo a passagem de músicas de 14 minutos para sete.
A experiência com a nova formação, portanto, envolveu tanto a reprodução cuidadosa das partes do repertório quanto a compreensão das nuances que não aparecem apenas na notação. Para Nilles, esse estudo representou a primeira vez em que mergulhou tão profundamente na linguagem de outro baterista.







